O refúgio do corte e a desconexão.

Pode haver uma forte ingenuidade emocional nestas pessoas que, protegidas por sua desconexão, observam com perplexidade as complicadíssimas emoções dos outros. Diante das situações dolorosas e complexas podem adotar uma atitude de “transparente inocência”, passando através delas como se nada tivesse acontecido. Na realidade se dissociaram e esta habilidade é que lhes protege, com a sensação de que “nada os toca”. Obviamente, ao que menos estão dispostas é tocar aquela angústia e o profundo vazio.

Mas é preciso não confundir essa atitude para dissociar-se, com liberdade e espontaneidade. Nesse sentido, quem sabe a Lua em Aquário seja uma das mais complexas de se viver, porque a enorme dificuldade de elaborar a angústia que inevitavelmente carrega, se somam a afetivação da liberdade e aos múltiplos recursos ideológicos relacionados com a valorização de não pertencer e com a rejeição do que é comum aos demais. O que angustia profundamente em um nível, protege racionalmente em outro. Não duvidaremos que se sentem diferentes e impossibilitados de compartilhar com os outros o que realmente sentem e converteram em um hábito e, como sempre, isto tranqüiliza.

Ainda que sua singularidade e diferenciação seja um fato certo, está mascarando a incapacidade - mais que compreensível - de permanecer nesse vazio uma interação curativa. Enquanto persiste em reações automáticas de sociabilidade, desapego e desenvoltura - “os compromissos são coisas do passado...”, dirá - a pessoa continua encobrindo ideologicamente o pânico do contato e a intensidade.

Enquanto se coloca como “observador objetivo” das emoções alheias, o próprio umbral emocional da Lua em Aquário é realmente baixo. Assim é, quando a emoção se intensifica um pouco, rompe o tênue fusível que o protegia, interrompendo qualquer processo de que esteja participando. O que para uma Lua em Escorpião é apenas uma “brisa”, para Lua em Aquário é um “tornado”.

Diante dessa advertência de perigo, a convicção da pronta interrupção “externa” da corrente afetiva dispara sua angústia e assim, automaticamente, a pessoa se acomoda na distância. Sua conduta se torna impessoal, fria, objetiva; desconectada completamente das emoções: racionaliza com clareza sobre elas, mas seguramente, tomará decisões que não correspondem com suas necessidades. É muito comum, neste sentido, que uma Lua em Aquário sofra arrependimentos tardios, por sua tendência a cortar relacionamentos antes do tempo.

Corta antes de comprometer-se?

Bom, a palavra “compromisso” é quase uma blasfêmia para a Lua em Aquário, um atentado a liberdade individual... Quando se insinua a estabilidade afetiva, imediatamente se produz um movimento inconsciente que o leva a retirar o afeto e, obviamente, com isso termina qualquer vínculo. Aqui vemos a sombra profunda dessa Lua: quem acredita possuir um sistema emocional mais apto para o futuro que para o presente - no meio desta “humanidade de emoções primitivas” - na realidade é quase um diminutivo emocional. Isto pode soar excessivo, mas me parece que todas as promessas criativas desta Lua - para ser real - dependem primeiramente da aceitação da dificuldade e a necessidade de ajuda, neste ponto. Ao ter muito baixa a tolerância emocional, é pouco provável que essa pessoa possa recorrer aos ciclos de qualquer vínculo mais ou menos estreito. Não pode aceitar que toda a realização afetiva tenha altos e baixos, em consequência sente que a carga emocional sobe e baixa além de sua linha de corte, em geral decide que o vínculo terminou ou toma uma distância incompreensível para os demais. Viver um processo completo com seus máximos e mínimos, suas intensidades e retiros, encontros e desencontros, o obrigaria a revisar a distância entre seu pretenso desapego e sua angústia básica. Antes de chegar a este nível de amadurecimento, a Lua em Aquário passa anos de sua vida oscilando entre duas posições: ou toma muita distância desde o começo - de modo que os outros as carreguem na curva do ciclo - ou corta muito antes do necessário, interrompendo inclusive o que não teria de ser cortado.

Para os demais é difícil compreender que o que se mostra desta maneira, na realidade, leva sobre si a carga de um enorme vazio interior e a acumulação de uma angústia não elaborada. É alguém que desconhece seu nível emocional, mas que, inconscientemente “sabe” que o contato real o fará atravessar um espasmo, forçando-o a enxergar a ilusão de sua pretensa liberdade afetiva. Sustentar esta tensão em uma situação vincular concreta é fundamental para que venha à tona todas as feridas, o vazio e as fantasias angustiantes associadas a ele. Só assim, a pessoa se compreenderá e se fará compreender pelos demais.

Mas o sutil é que ser emocionalmente compreensível é estar fora do mecanismo, é poder sentir que realmente compartilha e se encontra em profunda intimidade com os demais. Isto permite, a meu juízo - mais que alguma outra coisa - dissipar o imaginário de excepcionalidade emocional sobre ele que está inconscientemente sustentado pelo qual “meu destino é o vazio”. Para que possa emergir a sensação - não a idéia - de que “meu destino é a liberdade e a espontaneidade”, primeiro deve dissolver a fantasia anterior.

3 comentários:

Vancourt disse...

Perfeitamente certo.

Tive uma paixão por uma Lua aquariana há alguns anos. E foi bem assim "vazia e afastadora" a reação que ela teve comigo, ao ver o modo como eu (tendo Lua em touro e asc peixes) tentava me conectar emotivamente a ela.

É desconcertante e dolorido o que elas causam às pessoas.

Larissa disse...

Deixe-me ver se entendi , eles sentem angústia porque não conseguem retribuir e sentir como os outros ou sentem pq não suportam a idéia das emoções?
E sim é desconcertante e dolorido demais o que essa lua causa , jesus :(

Ótimo post..

Lara Moncay disse...

Grata.