Então pode tratar-se de uma atmosfera de morte, antes de uma morte física...

Sim, pode ocorrer que a mãe tenha estado “carregada de morte”, mas não por uma morte concreta e sim pela enfermidade grave de alguém muito querido, por exemplo, de modo que durante a gravidez se sentiu cheia de dor diante da possibilidade da perda.

É muito comum como dissemos no princípio, haver nascido com duas voltas de cordão umbilical, de maneira que quando o bebê quer sair do ventre não quer fazê-lo e o próprio movimento da saída o asfixia. Esta á a marca impressa inicialmente, mas a estrutura seguirá desenvolvendo-se durante a infância, com novas manifestações desta correlação. Também é habitual que a mãe tenha sofrido graves enfermidades quando a criança era pequena, ficando este pendente em seu estado e envolvido na atmosfera psíquica de dor. Depressões profundas e tentativas de autodestruição da mãe - ou a explicitação freqüente desta fantasia - também formam parte do padrão, estar ao lado da mãe, e ser mais querido e necessitado, significa ao mesmo tempo estar ao lado da dor, do conflito, e da presença da morte. A manifestação mais literal de tudo isto será, em alguns casos, a morte da mãe.

 A descrição deste cenário reproduz, de maneira mais ou menos precisa, a ligação afeto-destruição própria desta energia, mas o mesmo registro se dará também em outros níveis. No geral, o campo afetivo que rodeia a criança reinará uma fantasia de fusão na qual este não é percebido como um ser autônomo, não só quando bebê mas ao longo de seu crescimento. É evidente que esta fantasia é compartilhada no nível inconsciente tanto pela mãe como pelo filho, ainda que em geral a pessoa adulta com a Lua em Escorpião a atribuirá exclusivamente ao campo afetivo que o rodeava em sua infância, como se o desejo absorvente tivera sido completamente externo a ele. Do ponto de vista astrológico, igual ao restante das Luas, isto não é assim, a modalidade afetiva funcional forma parte da energia da criança que, por essa razão, tem como destino esses vínculos. Em termos psicológicos, pode observar nessa estrutura a incapacidade do pai - ou a ausência - para colocar limites a essa relação que permite que se articule na criança a fantasia de ser tudo para a mãe e de ser ela, a sua vez, tudo para ele. Neste imaginário coexiste a fascinação do absoluto e do terror de sentir-se completamente a mercê deste ser todo poderoso. É preciso explicar que este ser absoluto, no caso da Lua em Escorpião, sempre será feminino. E isto se diferencia das outras estruturas de alta carga plutoniana em que podem aparecer como masculinas ( ainda que de todo modo, em tal representação geralmente podem rastrear a presença de uma fantasia feminina acerca do masculino)

O modo afetivo no qual o vínculo funcional pode manifestar é através de uma mãe que sempre “sabe” o que o filho necessita, antecipando-se continuamente, sufocando e dando-lhe tudo, sem permitir jamais que descubra por si mesmo o que realmente necessita e possa assim articular um desejo autônomo.

Em todos esses casos o primeiro bebê - e criança depois - não tem tempo em espaço para descobrir o que é que quer, diante do presente desejo potente superprotetor da mãe que “sabe” o que se deve desejar. Mais tarde na vida, experimentar um desejo independente ou não autorizado por essa gigantesca figura feminina - projetada a onde for - será algo terrivelmente perigoso. Satisfazê-la e voltar a ficar preso em um jogo superprotetor e alienante, em que sempre necessita a autorização desta figura, será a pauta mecânica de comportamento.

Como dissemos antes, isto é diferente do que ocorre na Lua em Áries, porque ao pedir continuamente “algo” está em jogo uma mãe que claramente diz “quero que faça isso e aquilo” de quem, portanto, é possível defender-se. Com a Lua em Escorpião, no contato, há um campo desejante que produz sufocamento e indefesa, porque a mãe sempre está dando algo que retira o desejo. É a Lua da típica frase: “a criança não me come!” No padrão da Lua em Escorpião é importante registrar que aquilo que dá, ao mesmo tempo tira, mais ainda, destrói a quem está recebendo, porque este não existe além da intensidade do desejo.

Em termo arquétipos, podemos ver de outro ângulo as transformações desta estrutura. Ainda que seja comum em ambos os gêneros, nas mulheres com esta Lua é mais visível a sensação de ter sido nutrido por uma “mãe aranha”, que teceu sua teia e o segurou durante sua infância. Quando ela chega a ser a mãe, se converte, a sua vez em uma “mãe-pelicano”. As fêmeas pelicanos alimentam seus filhotes introduzindo-os dentro de seu grande bico e, se por alguma razão não encontram comida para eles, abrem o peito com seu próprio bico para deixar-se comer por suas crias. A pessoa com a Lua em Escorpião tende a deixar-se devorar por quem ama, e esta é a “contra-cara-pelicano” da “mãe-aranha”, na qual a sensação de ser devorado se põe naqueles a quem se dá. É comum, por essa razão, que muitas pessoas com essa Lua não queiram formar família ou ter filhos, ao sentir-se terrivelmente afogado por essa sensação potencial diante da qual não sabem colocar limites.

A criança fica então envolta a esta superproteção, da que não pode diferenciar-se porque seu desejo é definido como idêntico ao de sua “mãe”. Desejar outra coisa é perder automaticamente a intensidade desta presença afetiva e fica suspenso no vazio da diferenciação, vivido com muito mais perigoso e mortal a permanência de um desejo alienante, associado a segurança.

Esta identidade com a “mãe” e seu desejo se manifesta até mesmo em marcos familiares muito poderosos em que a pessoa é a família (nós somos), não havendo lugar para indivíduos cujo desejo não seja idêntico ao familiar: “nós somos os que fazemos as coisas desta maneira, se alguém as faz de outra, não pertence a família”. Neste tipo de mundo afetivo, para ser querido tenho que ser igual aos demais e fazer tudo aquilo que deve ser feito e desejado. O que se manifesta é um corpo afetivo e o filho é só uma célula do mesmo.

A necessidade de contato ou, melhor dizendo, de imersão em um corpo coletivo, vasto e poderoso, que transcende o indivíduo, organiza um hábito em relação a intensidade emocional. Assim, se experimenta uma identificação afetiva vincular poderosa, a pessoa fica sem identidade, nua e desprotegida. Neste nível, necessita desesperadamente pertencer a esse núcleo potente, e a possibilidade de ficar fora do mesmo implica em morte. Assim tem tudo o que necessita e fora só existe o vazio, mas a sua vez, permanecendo nele, não é possível ser um indivíduo porque esse núcleo não aceita diferenças.

É semelhante a um núcleo canceriano, porém mais intenso?

Seria canceriano na “quinta potência”... Na Verdade, toda Lua é canceriana no sentido que gera um mundo necessariamente fechado, para proteger o vulnerável. Mas ao fechar, na Lua em Escorpião, se faz absoluto, gerando uma intensidade emocional máxima. O canceriano, em seu extremo, leva a proteger - e em última instância - a tratar a pessoa como se fosse criança durante muito tempo. Mas com a Lua em Escorpião essa criança é uma célula mais do corpo coletivo, é propriedade de um mundo afetivo que não pode suportar um comportamento autônomo e individualizado. Diferenciar-se é atacar este corpo, traindo-o e desprezando tudo o que esse mundo tem entregado para o suposto benefício da pessoa.