A “mãe” da Lua em Aquário.

Não é fácil imaginar a materialização desta Lua em um contingente que não gere afetos traumáticos para uma criança. A amplitude e liberdade que possui seu campo afetivo, ao manifestar-se “fora” dele em vínculos primários que devem objetivá-la, atenta contra suas necessidades mais básicas e, quase inevitavelmente, deixará marcas muito difíceis de apagar.

De um ponto de vista ideal, poderíamos imaginar esta criança em uma comunidade onde as crianças são filhos de todos e o afeto circula intensamente, mas impessoalmente através de múltiplas “mães” e “pais” que satisfazem suas necessidades sem apegar-se pessoalmente a eles. Esta não pode ser uma comunidade tribal ou um grupo unido pela profunda constatação de seus membros com uma pauta em comum. Mas bem, deveríamos imaginar que cada mãe pertence a uma raça diferente, tem pautas culturais e condutas totalmente distintas e inclusive se dirige ao bebê em um idioma diferente das outras. Esta capacidade de sentir-se seguro e cobiçado naquilo que não se repete é o tesouro da Lua em Aquário, mas é duvidoso que possamos vê-la materializada ao seu redor nestas características. Não sabemos tão pouco se este meio, assim imaginário, é realmente tolerável para um bebê. Quem sabe o seja e nisso consista a promessa da Lua em Aquário, como fonte de novas possibilidades emocionais para a espécie. Mas em termos concretos e atuais, a qualidade de não continuidade e diversificação criativa que esta energia exige para manifestar-se, se materializa em geral por vias muito mais contraditórias e dolorosas.

A pauta que deve fazer-se objetiva, então, é a súbita interrupção de seu sistema emocional, a passagem instantânea da presença à ausência, como na Lua em Capricórnio. No marco do padrão aquariano haverá outra fonte de afeto e calor diferente daquela que se interrompe, imediatamente disponível para suprir as necessidades da criança. O vazio aquariano não significa a solidão e sim, requer que não busque o mesmo que se retirou, é dizer, permanecer aberto a outra modalidade afetiva, a outra distância, a outra intensidade. O pulso diz: “está, não está, há algo diferente, não está mais, há outra coisa”, o qual obriga a deixar para trás as identificações e se integrar a circulação e a novidade.


Na história concreta, a experiência básica pode ser o repentino corte com a segurança emocional: por alguma razão o meio afetivo quente e nutritivo, subitamente quebrou e a criança ficou no vazio. Como alguém que de improviso é privado de oxigênio, a carência do essencial a deixará “suspensa” por um instante e, ainda que isto retorne tão repentinamente como se foi, um espasmo deverá ocorrer inevitavelmente e será a marca de seu inconsciente.

A súbita morte de um dos pais, o inesperado divórcio dos mesmos, algo incompreensível - para a criança - alteração da situação econômica familiar ou da conduta de seus seres mais queridos como depressões, crises nervosas, ausências, ter sido deixada sem maiores explicações ao cuidado dos outros - eventualmente muito carinhosos - porque os pais foram viajar, ou porque a mãe ficou doente e não pode vê-la, estes são alguns dos acontecimentos esperáveis nos primeiros anos de vida.

Mudanças repentinas, um incêndio no lar... São também “causas” que a pessoa recordará como episódios significativos e mais ou menos traumáticos de sua infância. Mas, ainda que ela logo situe um desses fatos específicos como o desencadeador do padrão emocional, com segurança houve infinitamente muitos estímulos de menor envergadura - na mesma direção - rondando ciclicamente a marca básica.

O contexto habitual para esta Lua é o de uma instabilidade recorrente do meio afetivo através de fortes crises ou de alguma presença perturbadora que sublinha os acontecimentos cotidianos. Aqui, o fator mais importante pode ser o comportamento irregular da mãe. Esta, ou quem ocupe o lugar dela, é de alguma maneira imprevisível para a criança. O significado da Lua em Aquário - de um ponto de vista canceriano - poderia ser definido como “minha mãe está louca”. A “mãe” desorienta absolutamente o bebê, que deverá realizar um tremendo esforço de adaptação. Muitas vezes a mãe sofre de transtornos mentais ou padece de problemas nervosos. Seja por causas específicas ou porque a situação familiar exerce uma pressão excessiva sobre ela, seu comportamento instável manifesta o padrão pelo qual a criança não pode contar com a segurança de um meio contínuo. É provável também que no meio familiar esteja muito presente a sensação de desarraigamentos: pais estrangeiros ou imigrantes muito diferentes de seu meio cultural, pessoas nascidas em zonas rurais que são obrigadas a viver na cidade - e vice-versa - questões ideológicas ou religiosas, qualquer desses itens serão particularmente relevantes quando é a mãe que experimenta uma sensação de estranhamento e não obrigação com o mundo em que vive.

De outro ângulo, na família podem estar muito afetivizado a criatividade e a originalidade, ou o ir “contra a corrente”, tanto de um ponto de vista ideológico como religioso ou moral. Quem sabe alguém importante na infância professava idéias revolucionárias ou possuía grande liberdade de pensamento em relação ao meio, não só em termos sociais e sim expressando alguma visão cósmica que para criança era incompatível, por exemplo, com o que vivia as famílias de seus amiguinhos.

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